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      | Emílio Figueira
               
 
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Explicando a violência no futebol

Semanas atrás, estava fazendo a minha caminhada diária, ao passar em frente a entrada do CT do São Paulo, vi o portão principal arrebentado. Logo imaginei ser coisa de torcedor, pois no dia anterior o time havia perdido para o Corinthians. Isso me inspirou a escrever sobre futebol. Mas vou fazer diferente. Sem olhar para o que acontece dentro de campo, vou desviar o meu foco para algo que acho mais interessante nesse contexto, aqueles que se espalham pelas arquibancadas: os torcedores.

Confesso que não sou um apaixonado por esses eventos, acompanhar campeonatos, formação e evolução dos times, nunca tive nenhum jogador como ídolo, coisas desse tipo. Às vezes penso que é por eu ter tido uma infância todo semi-interno dentro de uma Instituição, tomado por aulas e muitas terapias, sem tempo e nem coleguinhas para brincar de bola. Depois, com onze anos quando fui para o interior, meus interesses já eram outros. Havia, sim, campinhos perto da chácara do meu avô e muitas vezes eu ia ver a molecada jogar. Nunca me deixavam entrar no time, alegando que era perigoso me machucar. Ou quando deixavam, eu era o popular “café com leite”! E por isso, acho que não peguei gosto pelo esporte. (Aliás, a mulher que cometer o bravo ato heróico de um dia se casar comigo, não enfrentará o problema de ter que me disputar com o futebol do fim de semana!!!)

Como ia dizendo, vou falar da torcida. Mesmo não me amarrando em jogo, confesso que, aqui em São Paulo, fui algumas vezes em estádios de futebol com o meu falecido pai – um carioca da gema, torcedor apaixonado – e mais recentemente com o meu cunhado. Principalmente no Pacaembu. Já fiquei tanto nas cadeiras cativas, quanto no meio da geral. Nessas oportunidades, raramente vi o jogo, fascinando-me mesmo com o comportamento dos torcedores. Muitos estão ali para realmente se divertir, por lazer, por gostarem de futebol. Mas também muitos me despertaram para algo mais numa visão de psicólogo.

Entre tantas teorias psicológicas, lembro-me da Sublimação, mecanismo de defesa que consiste em alterar ou deslocar impulsos do id (aspecto racional da personalidade) com o desvio de energia instintiva para comportamentos socialmente aceitáveis. Com isso, segundo Freud, a pessoa ao mesmo tempo elimina ou reduz possibilidades de perversão, de neuroses, de anormalidades psíquicas. Por meio da sublimação encaminha sua atenção e sua potencialidade para realizações e criações positivas ou para eventos que lhe permitem dar vazão às suas frustrações. Sublimação também pode ser a utilização de alguma coisa ou o desenvolvimento de atividade como substituição, a compensação de algo ou de uma vida que se desejava e não foi alcançada.

Mas o que isso tem haver com os torcedores? Observando muitos deles, acabei criando o termo “sublimação coletiva no futebol”. Sei que não se deve julgar ninguém pela aparência. Mas olhando para eles, noto um povo sofrido. Trabalhadores não dignamente remunerados, de moradias precárias, alimentação muitas vezes insuficientes. Cidadãos que quase nunca têm os mínimos direitos garantidos. Na contramão também vamos encontrar entre eles, pessoas de boas condições financeiras, porém com outros tipos de problemas, digamos existenciais. Sejam quais forem os motivos, sujeitos que vão encontrar no futebol uma válvula de escape. Direcionando de forma inconsciente suas frustrações, suas vontades de protestos sociais para uma torcida pelo seu time. Suas angústias cotidianas canalizam-se em gritos, palavrões, pulos, “cantos de guerra” em coro, coreografias, regados algumas vezes com teores alcoólicos.

O bom desempenho, o gol é comemorado como a satisfação momentânea de um falso prazer que pode ser coroado com vitória de seu time. Por instantes há a sensação de não haver mais problemas na vida. Mas se o resultado não é positivo, a sensação é como se algo fosse roubado. O mau desempenho do time é motivo de manifestar insatisfações que essas mesmas pessoas não têm coragem de fazer contra governos, cargas tributárias, patrões, um transporte precário tanto coletivo como individual, dentre tantas outras coisas que lhes oprimem, temem ser reprimidos, punidos por suas manifestações. Na derrota, o descontentamento manifesta-se em brigas e quebra-quebra, algo que pode ser justificado depois com a velha desculpa “agi assim porque o meu time perdeu”. A briga entre torcida é a briga inconsciente que muitos gostariam ter coragem para mudar sua situação fora daquele cenário. A torcida adversária torna-se o Judas na “malhação da vez“!

Entre eles também pode estar ocorrendo o que Sigmund Freud chamou de Deslocamento – um mecanismo de defesa que desloca impulsos do id de um objeto ameaçador ou indisponível para um outro disponível. Interessante, quase cem anos depois, Freud continua explicando!

Trata-se de um povo tão inocente que não são capazes de fazer uma análise de conjuntura. Hoje futebol tornou-se um grande jogo de interesses, correndo muito dinheiro. Jogadores ganham milhões. Ganhar ou perder para eles é indiferente em suas contas bancárias e contratos publicitários. Morreu o chamado amor à camisa, o drible, o jogar com raça, o amor ao seu clube ou a seleção de seu país. Olhando as entrevistas de jovens atletas, dificilmente um falará que seu objetivo e fazer carreira nacional, mas sim ser contratado por clubes internacionais. O que menos interessa aos profissionais do campo é aqueles que estão nas gerais, a não ser que eles pagam os ingressos, comprem os produtos das variadas grifes de clubes.

Isso também tem um cunho político. Enquanto o povo manifesta suas frustrações em forma de torcida pelos estádios, não irá para ruas protestar contra o governo, exigir seus direitos mais básicos. Historicamente, o Tri da Copa de 1970 foi um prato cheio para o povo desviar um pouco a atenção de nosso Governo Militar. E um polêmico livro lançado em 2008, fala que o governo militar da Argentina, sede da Copa do Mundo de 1978, aproveitando a ocasião, comprou literalmente o título para dar alegria ao seu povo, diminuindo assim os protestos que havia contra ele nas ruas e deu certo. A velha política romana do “Pão e Circo ao Povo” ainda funciona, galera!!!.

Posso até fazer uma comparação. Vivi por vários anos em pequenas cidades do interior paulista. Aos domingos, as pessoas iam para os estádios municipais e campos de fazendas ou sítios. Quem jogava e quem estava assistindo eram as pessoas da cidade. Longe de ser uma competição, tudo era muito descontraído, com muitas brincadeiras, gozações. O cara que estava em campo ia trabalhar ou estudar na segunda-feira ao lado do cara ou da moça que estava na arquibancada. Ao terminar, torcida, times, técnicos iam juntos para um bar ou churrasco familiar. Na pequena cidade tudo era pacífico, problemas que temos aqui e nos dão angústias nos grandes centros, não haviam lá. Por isso, o futebol de fim de semana era uma grande confraternização. Quase nunca um motivo para extravasar. A mesma união acontece nos campos das periferias das grandes cidades.

Pronto!!! Falei de futebol. Fui até um pouco extenso, mas fiz a lição de casa de cronista. Mas diferente dos grandes cronistas como Nelson Rodrigues, Stenislaw Ponte Preta, Mário Quintana, Vinícius de Morais, Ary Barroso, Pedro Bial, Ângelo Anccillotto – só para citar alguns -, não tomei nenhum partido e não defendi um time do coração, não chamei nas entrelinhas jogadores, técnicos ou dirigentes de geniais ou de burros. (Só de mercenários!!!)

Certamente, Freud não explicou nada sobre futebol, mesmo porque na sua época esse esporte nem existia. Mas eu sim, fui atrevido, peguei uma carona na teoria do Pai do Psicanálise para fundamentar minhas observações. Só espero que o leitor não me sacaneie, reconstruindo o velho chavão, dizendo: Figueira Explica!

Emílio Figueira
www.emiliofigueira.com.br



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  Emílio Figueira é escritor, artista, jornalista, psicólogo, psicanalista, vencedor de prêmios literários, e convive com uma deficiência devida a falta de oxigenação no cérebro durante o parto, ocasionando paralisia cerebral com problemas de coordenação motora e fala. Para saber mais sobre o Emílio, leia a nossa entrevista AQUI.  
     
 

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