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      | Emílio Figueira
               
 
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O Verbo da Felicidade

Ao longo dos anos, sempre ouvi várias pessoas conjugando a felicidade em períodos distintos. Basta conversar com uma pessoa de mais idade – e isto gosto de fazer desde pequeno! – que ela diz: “Ah, no meu tempo que era bom!”. Por várias vezes, parei para pensar nisso. Concordo que no passado haviam coisas ou situações melhores que hoje, como mais segurança, mais respeito, uma vida mais calma. Todavia, o acesso a serviços básicos como saúde, direitos, transportes, alimentação, avanços tecnológicos, dentre outros, acredito ser melhor que antes, embora muitos deles ainda não sejam o ideal. Mas estão aí para facilitar a vida moderna. Quantos no passado morreram em longínquos campos por não terem recursos? Perderam propriedades, outros bens e até a dignidade devido à “lei do mais forte”? Não contavam com aposentadorias, trabalhavam longas e exaustivas jornadas. Medicamentos só os naturais, comidas sempre as mesmas, saneamentos básicos raramente, o que nunca permitia uma mínima qualidade de vida. Problemas esses e outros que estimularam homens a pesquisar saídas, criar coisas, estudar em laboratórios científicos, tecnológicos e de engenharia, permitindo-nos chegar na evolução de vida que temos hoje. Claro que tudo isso também influenciou no comportamento frenético nosso de cada dia!

Mas e agora, com todas as facilidades da vida moderna, estamos felizes? Acho que não. O ser humano, por natureza, nasce e morre infeliz e se sentindo incompleto. Posso pegar como exemplo, um rapaz. Ele conhece uma moça, encanta-se por ela e passa a dizer: “Se eu casar com ela, vou ser o homem mais feliz do mundo!” Com o tempo, o destino une os dois. O rapaz agora passa almejar: “Eu preciso comprar a minha casa para ser feliz com minha esposa!”. Após muito trabalho e esforços, compram uma residência segundo suas posses. Agora o discurso será: “Vou comprar um carro para poder ter mais momentos de lazer com minha família, ir com mais facilidade ao trabalho!” Novamente um período de esforços e economias até comprar um automóvel. E aí começa um círculo: “Preciso de uma casa maior para ter conforto, um carro mais novo, comprar tal coisa, trocar outras”. Hoje em dia, até marido ou esposa fazem parte desse círculo de trocas. Aliás, se tem uma coisa que acho ridículo, são os caras que durante o namoro, noivado, morrem de amores e declarações melosas por sua amada; após algum tempo de casado, ao ver uma moça na rua, dizem: “Isto que é mulher, não aquela bruaca que tenho em casa”! E olha que tem muita mulher que fala assim também!

Com isso, estamos sempre projetando a felicidade para o futuro. “Preciso ter tal coisa, fazer tal, conquistar tal coisa para me sentir feliz!” E assim adiando a felicidade, quase nunca desfrutamos dela no tempo presente. Não paramos para assimilar que para se estar feliz, basta simplesmente se sentir bem. Como uma teimosia, não a percebemos no dia-a-dia, mesmo sabendo que a felicidade não é uma sensação eterna. Mas sim um estado de êxtase, daqueles que se atingem nos momentos de extremo prazer. Há mais de dois mil anos atrás, o filósofo grego Aristóteles já afirmava que a felicidade se atinge pelo exercício da virtude e não da posse.

Em contrapartida, os processos de infelicidade também funcionam como um momento para amadurecer, pensar e repensar as atitudes, os projetos. Por meio dessa perseguição futura da felicidade, surgem muitas de nossas angústias – uma sensação psicológica, caracterizada por abafamento, insegurança, falta de humor, ressentimento, dor e ferida na alma; uma emoção que precede algo (um acontecimento, uma ocasião, uma circunstância sem aparentes soluções). Lembranças traumáticas ou de perdas que dilaceraram ou fragmentaram o nosso ser. Basicamente, nossas angústias surgem no exato momento em que percebemos estar em uma situação totalmente sem saída. E, no meio de momentos angustiantes, encontraremos forças internas, soluções e forças para agir que nós mesmos desconhecíamos possuir. E a partir das soluções de nossas angústias, podemos alcançar a felicidade como uma perspectiva de melhorar de vida. Só que por comportarmos culturalmente como seres que nascem e morrem incompletos, apesar de alcançarmos nossos objetivos, continuamos insatisfeitos ou felizes em busca de mais.

Mesmo que a felicidade não seja permanente, pois vivemos de altos e baixos e não podemos estar bem o tempo todo, não precisamos ficar referindo-se a ela como uma lembrança ou conjugando-a eternamente para o futuro. Podemos ter como exercício viver o aqui e agora, valorizando aspectos positivos que nos rodeiam, pequenos prazeres, redescobrir nossa própria inocência, deixar fluir nossos instintos, registrar em fotos e filmes nossos momentos felizes, respirar profundamente, fazer exercícios, cuidar da saúde, usar nossa criatividade, ousar mais na vida com alegria de viver. Em suma, deixar fluir a nossa energia interior e aproveitá-la a cada momento.

Talvez o tão almejado segredo da felicidade esteja em aprendermos conjugá-la no verbo presente como a alegria agora de quem concluiu mais uma crônica.

Emilio Figueira
www.emiliofigueira.com.br


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  Emílio Figueira é escritor, artista, jornalista, psicólogo, psicanalista, vencedor de prêmios literários, e convive com uma deficiência devida a falta de oxigenação no cérebro durante o parto, ocasionando paralisia cerebral com problemas de coordenação motora e fala. Para saber mais sobre o Emílio, leia a nossa entrevista AQUI.  
     
 

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