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      | Emílio Figueira
               
 
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Mulheres de trinta (As Balzaquianas da vez!)

Muitas vezes ouvimos a expressão mulher balzaquiana. Referindo-se às felinas na casa dos 30 aos 39 anos de idade, trata-se de uma associação a Honoré de Balzac (1799-1850), romancista francês aristocrata, autor de uma belíssima obra da literatura mundial intitulada “A Mulher de Trinta Anos”, tendo sua primeira edição em 1818. Esta semana Balzac, despencou de alguma estante de biblioteca, esteve no meu Boteco, tomou umas e outras no balcão comigo e, quase dois séculos depois do lançamento de sua obra, desafiou-me a escrever sobre as balzaquianas da vez. Principalmente das solteiras!

É muito interessante falar um pouco sobre esse processo. Podemos sim, localizar a revolução sexual iniciada nos anos 60s como ponto de partida. A mulher braviamente lutou por direitos iguais, queimando seus sutiãs em praça pública. Deixou de ser dona de casa, foi para o mercado de trabalho, conquistou o seu espaço. E essa conquista aumenta consideravelmente cada vez mais, porque a maioria delas não foi só com a cara e a coragem. Procuraram estudar, cursar universidades, fazer cursos, deixando de lado o imbecil rótulo de “sexo frágil”, acumulando atividades paralelas – deveres particulares, estudo e trabalho ao mesmo tempo. Resultado, hoje as mulheres além de serem em maior número, estão melhores preparadas para os cargos mais altos e chefias. Tanto que uma acaba de chegar à Presidência de República. Uma questão de 15 anos no máximo! Lembro-me que em 1983, no grupo escolar, estávamos em um debate sobre homens e mulheres e o professor perguntou: “Por que vocês acham que uma mulher será uma boa chefe da nação?”. Uma amiga já com idéias revolucionárias, respondeu na lata: “Porque nenhum homem deu certo até hoje!”. E a história mostra que ela tinha razão.

Como anda a vida sentimental das balzaquianas solteiras? A psicologia Existencial-Humanista diz uma coisa que gosto muito. Todos somos livres para escolher nossos passos; mas também temos que ser suficientemente capazes para arcar com as consequências das nossas escolhas! As mulheres que me refiro, optaram por construir sua carreira e independência pessoal e financeira. O projeto de casar, ter um lar, sua família, foi sendo adiado. Hoje na casa dos trinta, muitas estão querendo também se realizar sentimentalmente. Mas vários fatores pesam nesse momento.

Uma mulher com seus vinte e poucos anos ainda conserva seus sonhos de “príncipe encantado”; diante do amor, enxerga o lado bom do relacionamento, valoriza mais os momentos felizes que vive no namoro ou viverá em sua vida de casada; quando há conflitos entre o casal, ela passa por cima, preferindo focar o lado bom da relação mais do que as dificuldades. A outra mulher quanto mais idade, mais ficará prática e exigente. Passa a ser centrada em si mesma, em suas próprias idealizações de homem que deseja. Consequência, todos os pretendentes que lhe apareça, ela foca muito mais nos que lhes faltam do que em eventuais qualidades que eles possam ter. Entre nossas idealizações e a realidade há uma grande distância. E achar um meio entre os dois pode significar o encontro de uma relação estável e madura, o que está faltando à muitas balzaquianas.

Os homens também têm uma parcela de culpa nisto. Enquanto mulheres procuram estudar e crescer, muitos se acomodaram, não procuram progredir, estudar, estar ao nível delas. Isso é um reflexo dos conceitos primitivos ainda presente no inconsciente coletivo masculino. Nas civilizações antigas, os povos construíam suas aldeias cercadas dos perigos. Aos homens cabia a missão de saírem em grupo pelas matas em busca de caça – o que poderia levar dias, semanas, meses. Enquanto isso, as mulheres ficavam na proteção da aldeia, cuidando dos filhos, de pequenos animais criados para o abate, saiam só por ali, pelas redondezas, para colher frutos silvestres. Quando os homens voltavam com a caça, não faziam mais nada, permanecendo por dias descansando nas redes ou esteiras, sendo servidos e alimentados pelas mulheres, reunindo forças para as próximas caçadas. (Sim, valeram as aulas de Antropologia do professor Badaró!!!)

As mulheres, donas de grandes sensibilidades e iniciativas, romperam com o primitivismo. O homem, em sua grande maioria, ainda não. Na verdade, ele é um ser passando por uma crise de identidade. Diante da emancipação feminina, o homem não pode mais preservar sua cultura machista; precisa tornar-se sensível, olhar sua parceira de igual por igual, admitir que a mulher possa se destacar em muitas áreas que antes era exclusivo a ele; que a capacidade feminina cresceu acentuadamente; nas famílias modernas já não existem espaço para uma figura de cabeça; as decisões, tarefas, deveres são as mesmas para ambos. O que um casal conquista é do casal e nenhum é melhor ou tem mais que o outro dentro da relação.

Fato é que as balzaquianas que me refiro, pelo caminho que escolheram, tornaram-se muito independentes. E essa independência tem sido uma das principais barreiras para que elas não se realizem também no campo sentimental. Com medo de perder essa independência, centradas em si mesmas, criam um modelo ideal de homem para corresponder às suas expectativas – talvez de dominá-los! – e assim saem com uma lanterna na mão pelo mundo em busca de uma utopia – só para lembrar um antigo filósofo. Talvez elas precisem reaprender uma coisa tão fundamental para qualquer relação a dois: a arte de ceder um pouco a favor do outro, reconhecendo que todos os seres têm defeitos e qualidades. E essas últimas podem superar os defeitos.

Ao homem cabe o dever da lição de casa. Saindo do machismo, ele está no meio do caminho rumo à descoberta da sensibilidade masculina. E essa caminhada tem que passar pelo fim da acomodação primitiva, rumo a uma preparação melhor, ter objetivos, metas, reconhecer a competência feminina e não ter complexo de inferioridade perante elas, desejando a caminhada da construção de um projeto de vida compartilhada. Ter mais auto-estima elevada, um bom nível cultural e amadurecimento psíquico para compreender e respeitar as balzaquianas como elas realmente merecem. Quem sabe assim, a oferta de pretendentes melhore para elas. E as balzaquianas, consumidoras altamente exigentes em um mercado com muita pouca oferta, deixam de ser uma raça que na vida sentimental procuram pêlo em ovo. E acham!!!

Emilio Figueira
www.emiliofigueira.com.br



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  Emílio Figueira é escritor, artista, jornalista, psicólogo, psicanalista, vencedor de prêmios literários, e convive com uma deficiência devida a falta de oxigenação no cérebro durante o parto, ocasionando paralisia cerebral com problemas de coordenação motora e fala. Para saber mais sobre o Emílio, leia a nossa entrevista AQUI.  
     
 

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