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Deficiência não inibe talento de morador da Lapa, autor de livros e vencedor de prêmios de literatura

Emílio Figueira com o livro “Caminhando em Silêncio”, um estudo sobre a deficiência desde o Descobrimento do Brasil, está conquistando o universo acadêmico


Carlos Petrocilo
Márcia Petrocilo



Ele é escritor, artista, jornalista, psicólogo, psicanalista... E também se intitula como “algo indefinido”. Morador da Lapa, Emílio Figueira nasceu em setembro de 1969, com uma deficiência devida a falta de oxigenação no cérebro durante o parto, ocasionando paralisia cerebral com problemas de coordenação motora e fala. Nada que o impediu de pintar quadros e escrever mais de setenta livros, entre científicos, contos, ensaios, infantis, poesias e romances. Ao todo, quinze foram publicados.
“Eu sempre me defino como algo indefinido (risos). Isto causou confusão na minha cabeça a ponto de me perguntar: Afinal, qual é a minha profissão? Durante muitos anos tive aulas particulares com um cara chamado Vitor Martinello. Ele era filósofo, professor de literatura e português, autor de inúmeros estilos de livros, enfim, quando alguém lhe perguntava o que ele fazia, respondia simplesmente: “Eu escrevo.” Hoje eu acredito que a melhor definição minha também seja esta: alguém que escreve!”
A vida artística começou cedo. Aos dois anos, ele pintava quadros. Alfabetizado, aos 5, escreveu sua primeira poesia dois anos mais tarde e não mais descansou.
A primeira obra foi publicada, aos 16 anos, “Noites Guaraçaienses”, com 56 poesias românticas. Entre os inúmeros títulos, destaque para "Vamos Conversar Sobre Crianças Deficientes" de 1993, editado pela Memnon Edições Científicas, adotado como referência em cursos de psicologia e pedagogia.
Emílio Figueira também conquistou platéia com roteiros para cinema e televisão, arrematando um concurso internacional em 2000 - V Concurso Internacional Literário de Primavera, Concurso Internacional. Emílio Figueira, filho e irmão de professoras, também tem seu encanto pelo mundo acadêmico, seguiu seus estudos após a graduação em Psicologia, concluiu a pós-graduação em Inclusão Escolar, pela FTC de Salvador/BA e no final do ano passado chegou ao grau de Doutor pela Sociedade Internacional de Psicanálise de São Paulo.


Emílio, em meio a tantos trabalhos que você tem realizado qual o que mais lhe deu prazer?
Isso é muito difícil em dizer, porque tudo que faço, coloco muita paixão. Quando estou escrevendo um livro ou realizando uma pesquisa científica, por exemplo, envolvo-me intensamente com a atividade. Por isso, chego a dizer que nunca trabalhei de fato, pois tudo que fiz foi muito mais um exercício de prazer e realização do que propriamente uma obrigação. Acho que é isto que falta na maioria das pessoas, envolverem-se com prazer em suas atividades por mais rotineiras que elas possam parecer.

E o que mais te deu retorno?
É difícil dizer, pois cada atividade minha teve a sua época e o seu retorno de acordo com o seu contexto. Mas se eu tiver que eleger uma, digo que foi a publicação do meu livro “Caminhando em Silêncio” que ganhou uma segunda edição o ano passado.

E qual retorno foi este?
Nesse livro contei a história da pessoa com deficiência desde a época do Descobrimento. Uma pesquisa inédita no Brasil. O livro está com boas vendas em livrarias e sendo adotado em vários cursos de graduação e pós-graduação. A editora preparou a segunda edição totalmente revista e corrigida dentro das novas normas ortográficas. E ele também foi lançado em áudio-book. Creio que esse livro ainda irá crescer muito.

Como uma pessoa com deficiência, você pode relatar um pouco de sua caminhada até aqui?
Sim, é interessante notar que com meus passos atravessei as três fases brasileiras dessa temática em quarenta anos de minha existência. Na década de 1970 eu estava lá, semi-interno na AACD, expereciando os últimos anos da institualização total que se promoviam em torno de quem tinha qualquer tipo de deficiência. No início dos anos de 1980, quando ocorreu o lendário Ano Internacional da Pessoa Deficiente (1981), foi um marco de muitas rupturas de conceitos, possibilitando a segunda fase brasileira com relação a nós. Era a chamada Integração Social, embora essa ainda trouxesse em suas entrelinhas o modelo médico. Foi nessa época que me despertou a consciência política. Por ser jornalista, foram incontáveis as matérias e artigos de opinião escritos e publicados nos mais variados órgãos. Por meio da extinta Revista Integração, tive a minha projeção nacional. Foram centenas de correspondências trocadas com outras pessoas com deficiência, profissionais e pesquisadores da área. Formei um enorme acervo sobre essa temática.

O nome “Caminhando em Silêncio” tem haver com o dilema sofrido por uma pessoa com deficiência em sua caminhada?
O nome “Caminhando em Silêncio” surgiu porque as pessoas com deficiência passaram anos despercebidas.

Agora se fala muito em Inclusão Social...
Exato. Nos últimos quinze anos vi nascer e desenvolver o terceiro conceito com relação às pessoas com deficiência: a Inclusão Social e Escolar, pautado no ano de 1994 pela “Declaração de Salamanca”. Esse documento reafirmou o compromisso para com a “Educação para Todos”, reconhecendo a necessidade de providenciar educação para pessoas com necessidades educacionais especiais dentro do sistema regular de ensino. Esse conceito rompe com os dois conceitos anteriores pautados em modelos médicos. Agora e toda a sociedade que se envolve na questão, surgindo cada vez mais campo e ações na prática. Acredito que a internet tem uma grande parcela nesse processo, pois nunca tantas pessoas se comunicaram e trocaram idéias sobre o assunto. As antigas reuniões e movimentos de pequenos grupos hoje se dão nos ambientes virtuais e o que é melhor, ao alcance de todos e democraticamente. Hoje o mercado de trabalho nunca absorveu tantos profissionais com deficiência; a inclusão escolar é uma realidade cada vez mais concreta; nos meios de comunicação de massa dia-a-dia falam e mostram essas questões. No campo das ciências, o desenvolvimento da biomecânica, as pesquisas e os resultados preliminares com células-troco e tantos outros estudo também me fazem ficar bastante animado com a reabilitação física e a cura de doenças de muitas pessoas.

A arte só existe enquanto houver inspiração, certo? E qual a sua fonte inspiradora?
Concordo, a arte só existe com inspiração. Mas também digo que para cada tipo de texto há um tipo de inspiração. Por exemplo, para eu escrever poesias tenho que estar gostando de alguém, principalmente de forma platônica. E como já há alguns anos não me apaixono, nunca mais fiz poesias. (risos)

Alguns escritores, como o russo Dostoiévski, escreveu seus melhores textos em uma fase solitária. Miguel de Cervantes de Saveedra, por exemplo, escreveu o famoso Dom Quixote de La Mancha quando estava preso. E há uma definição de estado para o escritor Emílio Figueira?
E a Psicanálise está aí para explicar isso. Um autor quanto mais solitário e angustiado diante das interrogações da vida, melhor irá se expressar na escrita e criar obras belas aonde o leitor irá se identificar e se encantar. Quanto a mim, já passei por essa fase, principalmente na adolescência onde escrevi os meus cinco livros de poesias. Hoje estou em outro foco. O meu interesse agora é escrever sobre a vida moderna, o sujeito e seus conflitos existenciais, dificuldades de inter-relacionamentos. Um sujeito que não está encontrando seu espaço no cotidiano ao mesmo tempo é altamente cobrado pela vida moderna.

Em seu escritório, livros é o que não faltam. Qual a obra que mais te encantou?
Acredite, eu já tive muito mais, cerca de três mil livros. Até que em 2007 achei que era um ato de egoísmo ter tantos livros só para mim. Então doei o meu acervo à biblioteca da universidade que me formei em Psicologia. Quanto a sua pergunta, na literatura universal me encantei muito com “Dom Quixote”. Sabe, quando eu era pequeno li “O Pequeno Príncipe” e não entendi nada. Há cerca de dois meses, reli e me encantei, uma verdadeira lição sobre os nossos conflitos existências. A leitura tem muito disso, há livros que você precisará ter bagagem e idade certa para compreendê-los.

Em que época e como foi que você descobriu a vocação para o mundo literário?
Com cinco anos de idade eu já escrevia. Nunca consegui achar a razão de quando e porquê.

Aos 40 anos de idade, você já rodou pelo interior do Estado de São Paulo e enfrentou desafios na capital. Conte um pouco de suas andanças.
Viver em pequenas cidades do interior, digo que é algo enriquecedor para a biografia de qualquer pessoa. Ali, se aprendem grandes valores como amizades sinceras, união de todos em diversas causas, modos simples de viver das pessoas da roça, hospitaleiras, conviver com animais e a natureza. Conheci muitas pessoas e histórias fascinantes. Por exemplo, você nunca sai da casa de um caboclo sem ao menos tomar um café por mais simples que seja o seu casebre. São muitos arquétipos que estão bem guardados na minha memória e certamente estarão nos meus futuros romances. Aí, acabo de lhe revelar mais uma das minhas fontes inspiradoras...

E qual o próximo desembarque?
Não sei lhe responder. O destino sempre nos manda para lugares inusitados. (risos)

Em um país cuja população possui pouco afeto pela leitura, você mantém-se animado em publicar livros?
Acho uma colocação um pouco preconceituosa dizer que o brasileiro não lê. O mercado editorial aquece a cada ano, as editoras se multiplicam, inovam cada vez mais na produção editorial e gráfica, estratégia de marketing. Segundo a Câmara Brasileira de Livro, cerca de 260 mil títulos novos são lançados por ano no país. E se elas fazem isto, é porque tem consumidor. Além do que o nível de escolaridade do brasileiro tem aumentado cada vez mais, independente de discutirmos aqui a sua qualidade. Sim, eu me mantenho animado com relação ao futuro de minha produção.

Você tem realizado vários sonhos, acreditamos que sim. Qual o seu maior sonho já realizado até o momento?
Se tenho que eleger um, foi a conclusão da minha faculdade de Psicologia, um sonho que almejei por vinte anos e Deus me deu na hora certa. Digo isso, porque entrei na faculdade com 33 anos. Se tivesse entrado com 18 anos como todo mundo, não teria a maturidade que tive com mais de 30 anos para aproveitar bem o curso. Realmente, Ele sabe a hora certa de nos abençoar e cumprir os nossos desejos.

E qual você ainda almeja conquistar?
Falando um pouco de Psicologia, Carl Jung denominou de “individuação” a fase entre os 35 e 40 anos de idade. Segundo ele, nesse período a pessoa deseja já ter realizado três etapas da vida: estabilidade profissional, casamento e filhos. Por já ter realizado esses três estágios, suas buscas da primeira fase da vida foram cumpridas, mas ela ainda está cheia de energia e precisará encontrar outras metas para canalizá-las. De certo, eu ainda não atingi os dois estágios: do casamento e filhos. É comum nessa fase também, termos a falsa e grande sensação que não dará mais tempo de realizar os nossos desejos. Eu tenho consciência disso. Por isto, mantenho viva a esperança de ainda me realizar pelo menos em mais uma dessas etapas. Afinal, sirvo um Deus vivo na Congregação Cristã no Brasil. Certamente, é esse mesmo Deus que sempre iluminou a minha mente nos estudos e trabalhos e um dia ainda há de cumprir os desejos pessoais do meu coração.

A palavra é mesmo esta, “individuação”?
Sim, no vocabulário julgano significa o ato de tornar-se individuo na maturidade.

Como você pretende estar daqui uns cinco anos?
Além do que já falei acima, depois de acabar minha pós-graduação em Educação Inclusiva, terminei o Doutorado em Psicanálise. Pretendo estar dando continuidade às minhas pesquisas e, quem sabe, clinicando. Na literatura o grande sonho da minha vida é ter um dia um contrato fixo com uma editora de médio a grande porte. Se Deus me der esta graça, daqui a cinco anos quero estar estabelecido no ramo literário e escrevendo os meus romances sem ter a preocupação se vou conseguir uma editora para publicá-lo.

Qual a importância da família em teu trabalho?
Quase toda a importância do mundo. Se cheguei até aqui, foi porque tive uma excelente estrutura familiar, principalmente da parte de minha mãe, irmãs e de meus avós maternos.

Você está feliz com a região em que mora, na Lapa?
A Lapa, por ser um bairro tradicional, desperta muitos fascínios em mim. Sinto-me bem em morar nesta região. Só que tenho andado muito pouco por ela. Gostaria de ter mais tempo para conhecê-la e explorá-la muito mais. Acho que, quando eu começar a fazer isto, encontrarei muitos personagens interessantes para os meus enredos.

O que você acha do site Diário da Lapa destinado aos moradores da Lapa e região?
Ultimamente tenho trabalhado muito com o conceito “atitude”, pois só progride na vida quem têm iniciativas. O ato de vocês fundarem este site é uma grande atitude de coragem. No momento em que a grande imprensa está cada vez mais globalizada, criar um órgão de comunicação local ou regional ganha mais valor para essa comunidade.

Bom é isso, Emílio, estamos felizes com a conversa e desejamos parabéns pelo seu trabalho.
Eu tiro o meu chapéu pela iniciativa de um site na região e desejo vida longa ao Diário da Lapa!


 
 
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